Grupo de Macau compra maior herdade de bovinos do país

Foi aos 25 anos, em 1985, que António Trindade, engenheiro civil do Instituto Superior Técnico (IST), partiu rumo à Ásia para iniciar a sua carreira profissional. Ficou-se pela fervilhante Hong Kong. Poucos anos depois, e numa altura em que havia um boom de construção de infraestruturas e casinos, estabelece-se em Macau, onde hoje, juntamente com o seu sócio macaense Dominic Sio, controla um dos maiores grupos privados do antigo território português, a CESL Ásia — Investimentos e Serviços. Foi este grupo que adquiriu o grupo Monte do Pasto, o maior produtor português de gado bovino. Uma herdade que estava nas mãos do Novo Banco — fruto de uma dívida de €53 milhões ao antigo BES — e que se situa nos municípios de Cuba e Alvito, no Alentejo.

O investimento rondou os €40 milhões e teve o financiamento do Bank of China. As negociações com o Novo Banco para a compra desta herdade agropecuária, com uma capacidade de criação de 30 mil cabeças de gado por ano e 3700 hectares, começaram há três anos, contou em entrevista ao Expresso, António Trindade, presidente da CESL Ásia, salientando a importância de se tratar de um projeto de economia sustentável. “Já temos quase 80 pessoas no Monte do Pasto, quase todos jovens como formação superior”, adianta. Como veio Monte do Pasto parar ao radar da CESL? “Andávamos à procura de desafios na agricultura sustentável em Portugal e surgiu-nos este”, explica o empresário. “A sustentabilidade e a economia de impacto é uma das marcas do grupo CESL e uma prática de há mais de 20 anos, quando ainda não estava na moda”, frisa com orgulho.

Além da produção de bovinos (que exporta vivos), a Herdade do Tralho tem também uma fábrica de ração, e António Trindade admite como possibilidade que o Monte do Pasto venha a produzir suínos, a prazo. “A China consome 60% a 70% de suínos do mundo e está a enfrentar uma peste suína africana muito grave”, sublinha. António Trindade estima que, nos próximos quatro a cinco anos, o Monte do Pasto venha a ser alvo de um investimento de €10 milhões a €15 milhões.

Este foi um dos maiores negócios feitos por um grupo privado chinês em Portugal, e inserido no âmbito da Plataforma Portugal-Macau, uma rede de empresas que tem como missão fomentar negócios e parcerias no triângulo que liga China, Portugal e os países de língua portuguesa. “Somos muito acarinhados em Macau onde somos considerados uma empresa de referência, com cerca de 500 trabalhadores, um dos maiores empregadores a seguir aos casinos. Montámos as primeiras infraestruturas ambientais do país. Em 2010 começou a falar-se da Plataforma, e Macau pode ter um papel relevante na relação entre a China, Portugal e a lusofonia. A partir dessa altura começamos a replicar a nossa presença em Portugal. O nosso objetivo é que esta possa funcionar como complemento da plataforma para os países emergentes africanos e da América Latina”, esclarece. A importância do grupo CESL Ásia e do negócio espelhou-se aliás na receção que António Trindade deu em Lisboa para anunciar o investimento, onde estavam presentes desde o embaixador da China em Portugal à administração em peso do Novo Banco, nomeadamente o seu presidente, António Ramalho. O Governo de Macau participa num fundo de investimento na lusofonia, adiantou o empresário.

Investimento na energia e imobiliário

Não é o primeiro investimento que a CESL Ásia, grupo que além de ter projetos na área da energia e do ambiente é também consultor, faz em Portugal, onde já aplicou mais de €50 milhões. O passo inicial foi dado no início da década, quando o grupo investiu na energia. Foi um investimento de €15 milhões, em parceria com a startup portuguesa Magpower — avançou no final de 2012 com a construção de duas centrais de produção de energia solar. “Na energia estamos no fotovoltaico, com tecnologia portuguesa. Somos um dos grandes operadores de energia do mundo. Operamos em centrais elétricas nos casinos em Macau, estamos a falar de edifícios com um milhão de metros quadros, os maiores do mundo. É também nossa a operação do aeroporto”, adiantou.
Pessoalmente, os sócios do grupo macaense também fizeram investimentos no sector imobiliário. “Temos investimentos com alguma relevância no imobiliário. É todo praticamente em Lisboa, nas zonas nobres, feito essencialmente na área da habitação, com algum comércio.”

Para já, a CESL ainda não tem investimento em África, mas é uma questão de tempo. “Em África ainda não temos nada, porque ainda não temos infraestrutura em Portugal para o fazer. O objetivo é fazê-lo a partir daqui, pois é onde estão as pessoas que percebem da África lusófona.”

Notícia publicada no jornal Expresso -12/10/2019